quarta-feira, 13 de julho de 2011

A literatura como orientação da vida


A literatura como orientação da vida 
Quando o ensaio e o romance surgiram como formas literárias populares na Europa do século 17, os leitores procuraram neles a orientação espiritual e prática que até então encontravam em obras mais notoriamente filosóficas, como o Eclesiastes e as Meditações de Marco Aurélio. Samuel Richardson, romancista do século 17, tinha certamente plena consciência disso quando extraiu dos próprios romances "sentimentos morais e edificantes, máximas, advertências e reflexões", como os definiu, publicando-os em um volume separado.
O desejo de destilar sabedoria da literatura continua existindo, embora com a tendência contemporânea à autoajuda. É o caso de A Jane Austen Education, de William Deresiewicz, e How to Live, de Sarah Bakewell. Ambas as obras se baseiam em textos literários conhecidos para mostrar como o leitor pode aprender a viver melhor, embora os enfoques dos autores sejam bem diferentes quanto ao seu propósito.
Ph.D. pela Universidade Colúmbia e membro do corpo docente de Yale, Deresiewicz é um destacado polemista que expõe (tomando emprestado o título do seu tão discutido ensaio de 2008 publicado na revista American Scholar, de uma sociedade acadêmica americana) "as desvantagens de uma educação elitista". Nele, o autor afirma que Yale e outras escolas do mesmo calibre "esqueceram que a verdadeira finalidade da educação é formar mentes e não carreiras", e observa que, hoje, elas não têm lugar para os pesquisadores e as mentes inquiridoras que, outrora, as instituições de ensino privilegiavam. Em outras palavras, ele não hesita em descrever o declínio que está na base de tantas análises contemporâneas sobre formação, educação, moral e a própria juventude.
Assim como o seu ensaio, A Jane Austen Education pode ser entendido como a afirmação de uma missão. Em parte, ele repudia o elitismo e a arrogância intelectual que já levaram o jovem Deresiewicz a preferir Conrad e Joyce a Austen e Charlotte Brontë, preferência que ele abandonou quando a sabedoria dos romances de Austen venceu seu esnobismo obtuso. Embora de início menosprezasse a escritora, a leitura de Emma representou uma descoberta; por exemplo, ele constata que o romance expõe as provocações do personagem do título à idosa Miss Bates, como algo cruel e não espirituoso no sentido de cômico (moral: ser arguto e arrogante não é necessariamente uma coisa boa).
Transformado por essa leitura, Deresiewicz encontra em cada obra de Austen uma lição de vida, às vezes banal. Aprendemos mais quando estamos errados do que quando certos (Orgulho e Preconceito). E finalmente: ter riquezas, poder e carisma pessoal não é garantia de felicidade (Mansfield Park).
Alain de Botton pode ser considerado o santo patrono dos que cultivam o gênero do autor como conselheiro para a vida. Seu livro Como Proust Pode Mudar Sua Vida (1997) explora Em Busca do Tempo Perdido, do romancista francês, à procura de lições sobre "como amar a vida" e "como ser feliz no amor", uma façanha narcisista (se Proust pode de fato mudar a minha vida, para que perder tempo com De Botton?) que ameaçou tornar o grande romance de Proust uma caixa de bombons de máximas digeríveis.
Mais sério do que De Botton, Deresiewicz não consegue justificar seus exaustivos resumos dos enredos de Austen e, frequentemente, escreve melhor sobre a vida, neste caso, do que sobre literatura, como, por exemplo, quando revela que o professor Karl Kroeber, da Universidade Colúmbia, hoje falecido, o salvou de uma vida típica dos personagens de Barcelona/Metropolitan, de Whit Stillman. Ele se refere a Kroeber como "o homem de espírito mais jovem" que jamais conheceu, e atribui ao seu mentor uma visão que começava por "eliminar as camadas de tinta do cérebro" dos alunos, para "ensinar-lhes a olhar o mundo com curiosidade e humildade, e não com a certeza profissional que todos nós nos esforçamos por cultivar". O fim das certezas - a valorização do que não sabemos, bem como do que fazemos - leva ao momento da iluminação na estrada de Damasco para Deresiewicz: ele finalmente deixa de pensar no ensino como a transmissão do conteúdo da sua mente para a de seus discípulos, e passa a concebê-la de maneira nova como "a oportunidade de estimulá-los a descobrir os poderes neles latentes".
Entretanto, tratando Austen fundamentalmente como uma conselheira para a vida, e lendo os seus romances como catalisadores da autoatualização, Deresiewicz torna os seus livros meros instrumentos. O que ele destaca é o conteúdo ético que é possível extrair da obra de Austen, afirmando que sua leitura deveria estimular um comportamento crítico, como o autoquestionamento e a investigação intelectual. De modo que a "Austen" que ele apresenta se torna meramente um nome indicativo de "padrões morais e valores positivos amadurecidos", uma simplificação tosca de um conjunto de obras tão notáveis por seus rodeios, ironias e omissões quanto pelos conselhos que podem ser inferidos de suas páginas.
Uma carta de Deresiewicz a um amigo, cujo alcoolismo prejudicara o relacionamento entre ambos, fez com que este, mais tarde, agradecesse por ele tê-lo levado a procurar o AA e ter se recuperado. "Poucas coisas me fizeram sentir melhor ou mais orgulhoso", observa Deresiewicz. "Mas eu sabia que a carta teve uma coautora, Jane Austen." O que ele quer dizer é que não seria capaz de escrever essa carta se nunca tivesse lido Austen.
Em outro momento, ele menciona a mulher que se tornaria sua esposa. Aliás, seu casamento é a feliz consequência de uma série de relacionamentos condenados ao fracasso em razão de falsas expectativas, falta de autoconhecimento e uma combinação fatal de petulância e profunda insegurança. Segundo ele, o que o salvou durante as brigas de casal "foram duas coisas que aprendi com Austen: que o ponto de vista da minha namorada era tão válido quanto o meu, embora fosse mortal para mim ter de admiti-lo no meio de uma discussão; e que, se eu tinha cometido um erro, permitir que eu reconhecesse o erro - por mais horrível que isso fosse e por mais humilhante que fosse perder uma briga na qual eu investira tanto o meu ego - no fim das contas, seria bom para mim". Mas o que é bom para Deresiewicz não é tão bom para o leitor que procura uma nova abordagem sobre o que Austen consegue em seus romances. É quase degradante que a escritora seja considerada de maneira tão cansativa como uma esteta e não como uma campeã do estilo ou uma inovadora do ponto de vista da forma, e em alguns momentos desejei me deparar com um formalismo alegre, deliberadamente arrogante para esvaziar e confundir todo o arco da edificação moral, ou com reflexões sérias, mais céticas sobre o que significa argumentar que a literatura deve nos ajudar a perceber, segundo o subtítulo do livro, "as coisas que realmente importam".
Embora Sarah Bakewell e Deresiewicz tenham partido da mesma proposta de encontrar na literatura uma orientação para a vida, a autora se desincumbe com mais desembaraço de sua tarefa por construir How to Live como uma biografia de Montaigne e não como um ensaio sobre seu aprimoramento pessoal, e justifica de modo mais consistente o fato de a literatura oferecer, em certos momentos, orientação ética e espiritual. Os ensaios de Montaigne tratam explícita e reiteradamente da questão de como viver, e seu contexto decididamente secular, suas idiossincrasias e seu gosto pelo autoquestionamento imunizam até mesmo seus leitores mais fervorosos contra qualquer tentativa de hagiografia. Nos agradecimentos em How to Live, Bakewell conta que, 20 anos antes, em Budapeste, estava tão desesperada por alguma coisa para ler no trem que "arriscou uma tradução barata dos Ensaios em um sebo" (era o único livro em inglês que a loja tinha). A educação que os Ensaios lhe transmitiram é implícita e não explícita. Felizmente, ela não relaciona momentos específicos de seu crescimento íntimo a trechos de Montaigne, mas seu método de investigação deve muito ao próprio estilo meditativo do escritor.
Tendo-se libertado da linha exaustivamente cronológica da biografia tradicional, cujo compromisso é seguir o biografado do nascimento até a morte, Bakewell seleciona e justapõe incidentes ocorridos nas viagens de Montaigne, sua carreira política e seus ensaios. O título, How to Live, oferece 20 tentativas diferentes de resposta, algumas sérias ("Não se preocupe com a morte", "Sobreviva ao amor e à perda") e outras impertinentes ("Leia muito, esqueça a maior parte do que lê, e seja obtuso"); cada conselho de Montaigne - questione tudo, desperte da sonolência do hábito - é acompanhado pelo relato detalhado de sua vida política e intelectual e pela constatação de que suas obras continuam sendo lidas pelas gerações posteriores. Ela também situa os ensaios de Montaigne no contexto da história francesa do fim do século 16, com o apelo magnético de uma violenta fantasia ou do romance histórico (ver George R.R. Martin ou Dorothy Dunnett), particularmente no que diz respeito aos massacres que se seguiram ao casamento de Henrique de Navarra, protestante, com a católica Margarida de Valois, em 1572.
O resoluto estoicismo de Montaigne - a sua preferência pela temperança, moderação e indolência em comparação com os compromissos impetuosos e à emotividade imprudente - constituiu um grande obstáculo para os leitores na época do romantismo europeu, contudo ultrapassa perfeitamente para o como fazer. Bakewell destaca que Montaigne foi em grande parte o autor da ideia de que uma pessoa deveria escrever sobre si mesma "para criar um espelho no qual outras pessoas reconheçam a própria humanidade", dando início a "uma tradição literária de precisa observação interior, hoje tão familiar que se torna difícil lembrar que se trata de uma tradição".
O vigor de Bakewell como historiadora intelectual e cultural brilha de forma particular quando menciona a dívida de Montaigne para com o pensamento clássico grego, enfatizando a atração do pensador por um modelo essencialmente estoico de eudaimonia (felicidade) concretizado mediante a ataraxia, a libertação das preocupações e dos cuidados. A felicidade de Bakewell está em mergulhar profundamente em seu sujeito, mantendo a flexibilidade de pensamento que o livro de Deresiewicz elogia, mas não possui. Bakewell é uma admiradora apaixonada de Montaigne, sua leitora e releitora devotada e biógrafa entusiasta. Mas nunca sua discípula, e sua independência confere ao livro exatamente a capacidade de autoquestionamento que esperamos encontrar em uma obra que se intitula Como Viver. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110702/not_imp739644,0.php

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