sexta-feira, 8 de julho de 2011



Ler ou ver o filme?

Antigamente, pouca importância se dava ao fato de um filme ser baseado em um livro, ou isso por vezes nem era citado. A gente descobria por conta que tal filme era baseado em tal livro. Hoje, é quase impossível ver um filme que não seja baseado em um livro, e pior: um filme cujo lançamento já é programado antes do livro cair nas pratileiras. É como se o plano de marketing fosse feito antes do escritor meter a bunda na cadeira para digitar “Capítulo 1″ no Word.
Alguém aqui sabia que Laranja Mecânica era um livro quando viu o filme pela primeira vez? E se sabia, que importância deu a isso? Tem gente que vai descobrir isso só lendo meu texto. Ok, é um filme que transcende a obra literária (outro exemplo é “O Iluminado”, do Stephen King), mas o que importa é que ela foi feita de forma independente do filme. Imagine você se o Anthony Burgess pensou que veria seu livro na telona um dia quando o escreveu.
Hoje em dia, dificilmente uma obra sai para as livrarias sem um pré-contrato com o cinema. Você vê um livro do Harry Potter agora na Saraiva, e ano que vem no Cinemark. Oras, o que acontece? Parece bom a princípio, esse cruzamento de mídias, a intersecção entre literatura (uso o termo bem literalmente, e não para qualificar) e cinema.
Mas não creio.
codigo-da-vinci-poster09.jpgPrimeiro, porque é ruim para a literatura? Porque cada livro de ficção que você vê na livraria parece o roteiro de um filme. O Dan Brown sacou muito bem essa transição, e aí mora o maior mérito dele: o “Código daVinci” parece mais uma marcação para o roteirista e o diretor que um livro propriamente dito. Estou sendo chato? Pode ser, mas perceba o foco do livro nas situações e superficial nos detalhes descritivos e históricos. Apenas o mínimo necessário. Para caber em 90 minutos.
Não gosto da trilogia “O Senhor dos Anéis”, mas convenhamos: o excesso (para mim) de preciosismo do Tolkien na descrição mostra uma intensa preocupação em fazer o leitor entrar na história, de criar um ambiente palpável. Você percebe que houve um esforço. Hoje em dia, se você pegar as obras de ficção mais vendidas nas livrarias, vai perceber não apenas livros com menos páginas, como vai perceber uma crescente superficialidade no conteúdo da obra. Oras, para que perder tempo descrevendo algo que a telona já vai mostrar?
E não ajuda nada muito livro já sair com um contrato de filmagem junto: já vi lançamento em livraria que já trazia a etiqueta “o livro que inspirou o filme Tal, com estréia em dezembro 2007”. Parece que o livro é uma encomenda do estúdio. Nem vou entrar no mérito de grupos como a Warner, que são donos de editora e de estúdio cinematográfico ao mesmo tempo.
E por que é ruim para o cinema? Porque para de estimular o surgimento de roteiristas, gente que sabe transpor uma idéia para a linguagem do cinema diretamente, sem preocupações com atropelar a obra de alguém e já sabendo que aquele escrito tem que caber em uma determinada linguagem. O roteirista cada vez mais vira um adaptador de obras, empobrecendo a linguagem do cinema em prol do best seller.
300_hq_filme_f_002.jpgQuem já viu o filme 300 sabe do que estou falando: as cenas chegam a ser iguais ao painel das HQs.Facilita horrores a vida do estúdio, que pode perder menos tempo avaliando roteiros e se arriscando com textos que não foram avaliados pelo público, mesmo que na mídia impressa. Reduz a projeção de riscos e torna a empreitada mais agradável: dificilmente um filme do Harry Potter venderá poucos ingressos, considerando os milhões que pagaram para ler a o livro.
Aí, o roteiro original fica mais enfraquecido, o estímulo para o roteirista menos intenso, e esse cara tem que escolher entre pendurar o editor de texto ou escrever livros de sucesso, que demandam menos detalhismo, linguagem mais pobre e acessível, para facilitar sua transformação em roteiro. Percebem o ciclo vicioso?
Roteiros cinematográficos primorosos como Magnólia ou livros esplendorosos e ricos de informação como Guerra e Paz vão sumindo, e dando lugar ao produto amórfico, que não atende padrões de qualidade nem de obra cinematográfica nem de obra literária. Mas que vendem ingresso e cópias adoidado.
Fonte:http://silentinsanity.wordpress.com/2007/04/10/ler-o-livro-ou-ver-o-filme/

Nenhum comentário:

Postar um comentário